esse cansaço era feito o corpo coberto de uma areia grossa, um arranhar contra a pele rígido, como as articulações atrofiando. vinh’uma vontade de sono, as vinhas da noite trepando pelos músculos, as pálpebras numa ardência suave que coçar pesava. a boca abria, o pescoço tensionava, parecia querer se virar do avesso partindo do meio do bocejo. era como ficar de repente velho, muito velho, e a vida era uma lembrança já, e apenas, em que tudo está encerrado – à frente a noite, o escuro, essas dores do cansaço, essa gravidade do tédio, o horror do silêncio. enumerasse o que devia ter feito, o que deveria ter tido – o cansaço acumula nas costas, mas já é tarde: por dentro, as possibilidades se partem em partes menores, e menores, e menores ainda, um fractal em espiral descendo até o medo mais oculto lá no meio. o medo de ter sido ridículo.

isso é algo sobre o tempo.

a relação que, adultos, estabelecemos com ir até a geladeira de madrugada para buscar um copo de água. caminhamos como donos do desconhecido, sem medo de sermos abduzidos pelos monstros, devorados pelo que nos observa nos vidros da janela. coçamos a bunda no calção torto na cintura, esfregamos a batata da perna com o pé contrário – a luz da geladeira ilumina nossas olheiras, e o cheiro da comida fria também é adulto. temos que encher a jarra – mas não agora, não arriscando que esse cansaço caia do corpo e o dia de amanhã seja gasto sem humor algum, a dor de cabeça martelando sobre a ponte do nariz (que vamos tentar matar à cafezinhos). amanhã, não terá água gelada, e será incômodo – esse incômodo habitual, fundo na alma, de uma atividade sem esperança, que nunca é nada demais de se realizar, mas que ocasionalmente é o absurdo da nossa infelicidade, assim como arrumar a cama, dar nó nos sapatos, ou pegar um ônibus.

e descer do ônibus, o cansaço já arranhando contra a roupa, a vontade de que tudo vá pra puta que pariu alojada como um tiro próximo do peito. nos espreguiçamos com alguma juventude. pensamos em como aceitamos isso pelos pequenos momentos de felicidade – penso, então, que queria fumar, por hábito, um cigarro, para fazer pose, os pés recostados em algum canto, e olhar o céu de cenho franzido, e concluir que, se não fôssemos capaz de amar – que se não fosse o amor se fingindo a justificativa da nossa rotina, o beijo no final do trabalho, a mulher quente na cama no final da jarra vazia na geladeira, não aceitaríamos tanta merda assim.

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(só faz muito tempo)

não existe nada além dessa janela.

havia a noite, antes da nuvem comer as estrelas; havia o dia antes do sol se pôr e o escuro tomar conta; haviam pessoas andando pelas ruas, quando ainda haviam ruas habitadas — não há nada mais.

ele olha para a janela, através dela. é preciso confrontar essa desesperança.

ele sente-se imóvel. tenta tentar em outro momento, de um sentimento diferente: a fome estranha de estar junto de alguém, de beijar-lhe o corpo até cansar os lábios, e os lábios cansarem-se da pele, e também cobrir este outro corpo com o seu não é o bastante, e a vontade é de engolí-lo inteiro, de enfiar esta pessoa pra dentro, de metê-la no intimo para, quem sabe, ela entenda o que seus beijos expressam apenas de maneira incerta e limitada; não sentir-se incompleto, não para preencher um vazio — mas para quem sabe explodir inteiro de uma vez por todas, para talvez, estar finalmente satisfeito?

essa não é a hora. não o momento mais escuro. não toda a alienação do mundo de uma vez só; este não é o símbolo de nada, o mapa do vazio, a geografia infinita.

de têmporas em chamas, ele olha a janela, e como seu reflexo deveria estar olhando de volta, mas ultrapassado pela imagem exterior que não existe mais. só o reflexo.

e ele não se importa.

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se morre o poeta

ele abre nas estantes os livros do pai. marcad’as orelhas duma página e outra, surgiam talvez algumas de suas páginas favoritas, em que vinham ditas tais poesias significativas, se agora esquecidas pela sua ausência. relê-las parecia uma forma de penitência, a reconstrução de uma história invivida por descaso: s’em vida calhasse de sentar os dois, aos pés da estante, e tomassem umas cervejas compartilhadas – qu’era simples o velho, cansado demais pra romarias, queijos e vinhos -, poderia ter auscultado junto as marcações, comparar os versos, inteirar as histórias que elas, as páginas, sublinharam. mas não havia tempo mais, o outro foi desperdiçado; talvez não jogado fora, quiça gasto em outras significativas banalidades, como ver os contornos das rugas dele olhando o céu ao falar do tempo, ou vê-lo interagir com o mundo não como pai, mas como estranho. mas agora, a estante permanente, é para visita, como são as fotos e demais lápides, em que a memória dele é uma cobertura de pó, limpa com os dedos; e os versos são visitados com carinho e imaginação, com a invenção de narrativas possíveis até, mas desconhecidas — pra quem foram os versos de amor marcados, pra quem só os versos sobre o mundo, sobre a solidão, sobre a saudade. talvez não só história, não fosse tudo conciliado por uma única narrativa, que desse jeito e fim há tudo; talvez as palavras fossem marcadas só por o serem, por motivos mesquinhos de beleza. s’esses livros velhos não tinham seu cheiro de velho, suas textura de pele, da barba rala e áspera contra a pele depois do trabalho, ao voltar pra casa — tinham um pouco de outra coisa, que era ínfima, mas infinita.

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igrejinha

o teto alto, catedrático, guarda-nos da chuva. não dizemos nada, desde que tão bem aprendemos o silêncio, que o dominamos como segunda natureza. tenho os olhos baixos para desviar dos santos, de seus olhos também baixos; em comum, procuramos os ratos, talvez nossos únicos iguais.

ela senta em outro banco, e espia o confessionário. não diria nada ao padre; ela não tem segredos.

se não gosto de igrejas, não é por discórdia filosófica, nem por fé (que duvido, também, que tenha), mas por fazer-me revisitar tod’as minha vilanias e vergonhas, coisas que gosto de esquecer sempre. lembro-me de encostar nela, ela ali calada, ali olhando as frestas com interesse, e os vitrais, e odiá-la profundo, como se dentro de mim corresse um rio de lava, e disso me envergonho. disso os santos me lembram.

quando sento aqui, e a chuva ecoa pelas pedras, e o céu lá fora não é nada além das cinzas que restaram da noite, e nós estamos consumidos e extinguidos também como ele, e nos tornamos todas as coisas que voltamos a falar, que nós pensamos — rastreio seus gestos, os braços à cobra; suas injúrias, a boca à carne crua; o fundo dos seus olhos, a luz à fundo do oceano -, sinto-me muito sozinho.

espio-lhe o rosto, ebulindo as impressões dela sobre as coisas, espelhando tudo que a aorredorzeia, mas não a cerca; se ela, não sei bem, não fosse assim tão livre, não sei o que me seria. sei que não seria minha.

‘isso tudo é uma piada’, penso. e deve ser, mesmo.

uma hora a chuva passa.

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foda-se o céu.

queria escrever alguma coisa, mas a voz não se encontrar. toque-toque, quem é?, vazio; a soleira, a rua, nennum carro passando, nem ninguém. queria abrir um sorriso, mas já ‘tô com sono, já pesam as pálpebras.

assim eu filmaria o que me aconteceu:

ela está em primeiro plano (sempre), eu mesmo posso estar em segundo plano ou fora de foco, não importo. pelos ombros dela, uma segunda mulher – ela alheia, nenhuma das duas se reconhece, mas também não deveriam, não teriam motivos, não teria como nem porquê; ao redor desta que surge, uma aura histórica fortíssima, indissipável. isso se demonstra por como os olhos voltam a ela o tempo inteiro, auto-entretida e reflexiva, sorrindo talvez, mas melhor ainda se soturna sem nenhuma maldade, como que à espera de um atraso, entediada.

na segunda, nada. talvez olha para mim. e eu, talvez, ainda fora do plano (ela pode estar olhando para qualquer outra coisa), ou sumi completamente, sou um borrão sem foco, como se eu não tivesse limites bem definidos, ou vibrasse muito rápido.

depois passariam, e cruzariam pelo espaço entre elas, algmas outras, talvez duas ou três (não importa. também nunca importaram). eventualmente, os corpos de todas elas no plano, o tempo pararia.

queria que isso tudo ocorresse sem alarde, sem soar gongos. talvez ninguém pudesse encontrar a importância do que aconteceu, senão eu mesmo. assim é a arte. mas eu tentaria dizer ao mundo como é ver a consagração de duas placas tectônicas chocando-se, gemendo de costas uma com a outra.

alguns países se formaram por menos. os melhores países se formaram assim.

e um por um todos eles caíram.

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fabulinha

a menina tinh’os olhos amarelos.

(meu gato tem os mesmos olhos. escolhi-o por isso)

nada pude fazer contra. não eram perceptíveis, os olhos, assim que a olhava: podiam tão bem ser verdes, ou qualquer cor clara; talvez a luz dos postes, talvez o sol refletisse neles, e assim ficava essa impressão dourada; mas, não. pude vê-los de perto, quando deu-me evento, e eram realmente amarelos.

(em momento outro, mais além, veria que o reflexo das luzes fazia-lhe os olhos d’um laranja incandescente. m’apavorava. um dia, via o rosto dela só através da luz da noite, quando faróis iluminaram pela janela, e então vi-os em cor e carne. não pude dormir, mas pelo menos ainda deitava sobre seus braços.)

tudo nela parecia-me fantástico, raiz de todo encanto; não digo assim tanto por decisão de prosa, mas por literariedade, literalmente: como se do chão ela colhesse grama, e ao deitar sobre minhas mãos fosse uma asas caída de borboleta; e como se ela soprasse, de lábios unidos, as asas bateriam e iriam-se embora.

***

numa noite, sonhei com ela. caminhávamos pelas beiras do mar, as mãos atadas. tentava explicar a ela que era a única, não a primeira ou a última, mas todas as mulheres ao mesmo tempo atravassavam-na pelo âmago; me sentia uma criança, frágil e sem jeito.

quando virou-me o rosto, era todos os rostos mais lindos do mundo: a menina com as olhos cheios de lágrima na cama, a menina do sorriso pela fresta da porta, a menina da pintinha no nariz.

comecei a pegar fogo. o rosto dela ainda num sorriso, mas caindo pela água. ela fechou os olhos, o mar engolindo seu corpo inteiro, afundando para sempre. tentei entrar no mar, mas a água silenciava minhas chamas; virei fumaça tentando salvá-la.

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todo carnaval se apaixona-se 3 vezes por dia

não houve vencedor, nem haverá desfile!

desenlaça-se às imediações da quinta-feira; cruzo, as mãos nos bolsos, com quem vai ‘inda a missa. lembramo-nos que todo ritual pagão que se segue é apenas último canto-do-cisne da carne, abertura do período de resignações que antevém a ressurreição. não cabe a mim a oração, o cair de joelhos, o baixar a cabeça; compartilho, entretanto, um tipo íntimo de graça.

venho co’coração na manga.

escarrarei-lhe esse ano, ou algo do mesmo aspecto metafórico. ninguém durará até o inverno (essa, uma promessa santa), privarei-me de toda a dor da separação (viver bem, leviano, é minha maior penitência; cái-me bem a dor, o sofrimento), e minhas noite bíblicas serão meus maiores versos de anúncio.

se na primeira noite apareceu-me uma inconteste preferida, dos olhos oceânicos, dos quadris de maré, sexta-feira enozou-se meu desfile: ela. ela, pois, sempre ela, o anzol da carne, o nome além do nome, a idealização do meu inverno manso.

dei-me com as fuças em seu sorriso, e dei-lhe de volta uma boca de sangue – não era tanto favoritismo, era um arrebatamento aliciante, uma sutiliza incandescente, que consumiu-me a rua em magma; deusmelivre, mas que inferno.

sábado a terceira seguiu-a, mas meus pés arrastavam as imediações ‘inda da memória dela; não perderia-la, tão mais ela não se desfizesse no ar, nem fosse ela ilusão do álcool. se a quarta não tivesse no rosto a marca funda do desengano, talvez me atribulasse o bastante para cagar-me da infinutude dela. não foi o bastante.

volto e vejo no ponto de ônibus a marca d’água da semana no rosto dos que esperam; vão felizes, talvez porque agora, mas todos ‘tão privados da minha fundura. tantos bons homens, tantas boas mulheres.

é domingo e já quase me desespero. iria atrás-lhe, não sei por onde, para dedicar-lhe uma romaria de joelhos e rascunhar um futuro, mas não há como.

hoje desfila a mangueira, e em alguma coisa desse mundo ainda tenho que acreditar.

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